Conrado Krainer
Pós-imagem
A série propõe uma investigação sobre a cor como matéria instável e como evento perceptivo. Partindo de formas orgânicas — flores, caules, estruturas vegetais — as imagens deslocam o natural de seu regime habitual de representação e o projetam em um campo de intensidades cromáticas artificiais, onde o reconhecimento cede lugar à experiência sensorial.
Ao radicalizar a cor — por meio de inversões, contrastes extremos e paletas não naturalistas — o trabalho rompe com a ideia da fotografia como registro fiel do mundo. A imagem deixa de ser documento e passa a operar como superfície de transformação, onde a matéria vegetal é reconfigurada em um estado quase espectral. O que vemos não é mais a flor, mas o rastro de sua presença — um vestígio que oscila entre o orgânico e o digital, entre o visível e o latente.
Há, nesse sentido, uma continuidade com a investigação do tempo, mas aqui o tempo se manifesta como persistência retiniana, como pós-imagem. As cores vibram, colidem e se sobrepõem como se ainda estivessem em processo de formação, sugerindo que a imagem não se fixa, mas permanece em estado de acontecimento.
As formas, por vezes reduzidas a silhuetas ou fragmentos, evocam uma tensão entre controle e acidente. A flor — tradicionalmente associada à delicadeza e à transitoriedade — é aqui tensionada até o limite de sua legibilidade, tornando-se quase um signo abstrato. Nesse deslocamento, a série propõe uma reflexão sobre o excesso de imagens na contemporaneidade: ao invés de adicionar mais uma representação reconhecível, ela cria uma interrupção, um ruído, um campo de instabilidade onde o olhar precisa reaprender a ver.











