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Série - Para Lembrar e Esquecer

Em To Remember and to Forget, exploro o sonho como um frágil portador da experiência histórica. A série é inspirada principalmente nos relatos de sonhos reunidos por Charlotte Beradt em The Third Reich of Dreams, enquanto dois trabalhos ampliam essa investigação a partir de Stories of the Soviet Experience: Memoirs, Diaries, Dreams, de Irina Paperno. Essas narrativas tornam-se pontos de partida para uma investigação visual sobre medo, vigilância, deslocamento, perda e sobre os modos como a memória privada se entrelaça com a história coletiva.

Meu interesse por essas narrativas emerge de uma preocupação mais ampla e recorrente em minha prática com a memória e com a relação instável entre experiência e imagem. Aproximo-me desses relatos históricos a partir do presente e de uma posição de distância: são experiências que não testemunhei e memórias que não são minhas. Essa distância é importante para o projeto. Em vez de tentar reconstruir o passado como se ele pudesse ser recuperado, interessa-me pensar o que acontece quando tentamos nos aproximar de uma experiência que sobrevive apenas por meio de fragmentos, linguagem, arquivos e das memórias de outras pessoas. O trabalho também reflete, portanto, sobre minha própria posição como artista diante desses vestígios e sobre os limites envolvidos na transformação do testemunho em imagem.

O projeto combina fotografias de arquivo com imagens geradas por inteligência artificial. Os retratos de arquivo representam pessoas reais da Alemanha e da União Soviética, sobretudo das décadas de 1940 e 1950. Os relatos de sonhos, no entanto, sobrevivem apenas por meio da linguagem: descrevem experiências que foram lembradas e registradas, mas nunca fotografadas. Utilizo a inteligência artificial justamente no interior dessa ausência, como um dispositivo contemporâneo para tentar construir uma forma visual para algo que não possui uma imagem existente.

O modelo de inteligência artificial foi orientado exclusivamente por prompts desenvolvidos a partir dos relatos de sonhos. Não utilizei as fotografias de arquivo para determinar as imagens geradas nem alterei posteriormente seu conteúdo simbólico. Em vez de buscar uma ilustração definitiva ou fiel de cada sonho, quis preservar os acidentes, as distorções, as inconsistências visuais e as associações inesperadas produzidas pelo sistema. Esses erros e alucinações permanecem visíveis como parte do trabalho, enfatizando a distância entre testemunho e representação e a impossibilidade de recuperar plenamente uma imagem a partir da memória. A imagem gerada, portanto, não funciona como evidência do sonho, mas como uma reconstrução instável e necessariamente incompleta de algo que só pode ser acessado por meio da descrição.

As imagens geradas e os retratos de arquivo são então reunidos em composições físicas. Fragmentos manuscritos dos sonhos são repetidos, interrompidos, obscurecidos ou gradualmente apagados. Papel vegetal, linhas, alfinetes, grampos, fita adesiva e transferências com papel-carbono introduzem gestos de conexão, ocultamento, preservação e desaparecimento. Por meio dessas intervenções, procuro dar forma material à instabilidade dos sonhos e aos processos de lembrar e esquecer.

Os títulos seguem sistemas ficcionais inspirados em formas de comunicação codificada sob censura. Os trabalhos relacionados ao Terceiro Reich recorrem a formas de sentido oculto transmitidas por referências aparentemente banais à vida familiar, viagens, clima ou acontecimentos cotidianos. Os trabalhos soviéticos se aproximam da lógica da linguagem esópica, na qual metáforas e eufemismos permitiam que realidades difíceis circulassem de maneira indireta.

Cada composição foi produzida como um objeto físico e, em seguida, novamente fotografada e digitalizada. Os trabalhos podem ser exibidos tanto como assemblages originais quanto como impressões em pigmento mineral produzidas a partir desses registros. Por meio do projeto, compreendo o arquivo como um espaço inacabado, no qual fotografia histórica, testemunho manuscrito, imagem sintética e vestígios materiais permanecem em tensão, abrindo um diálogo entre sonho, história, memória e desaparecimento.

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